domingo, agosto 19

Vinculação: a base do amor é o amor


Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a.
Goethe

A Teoria da Vinculação pode ser vista como uma teoria sobre o desenvovimento socio-emocional, visto que defende que os seres humanos nascem munidos de um sistema de vinculação que lhes permite procurar a proximidade de uma figura que lhes forneça protecção e a base de segurança a partir da qual possam explorar o meio (Ainsworth, 1972, cit por CANAVARRO, 1999) e, assim, desenvolver-se enquanto pessoas.

A primeira ligação afectiva possibilitaria o desenvolvimento de internal working models, isto é, de representações das relações de vinculação, que englobam componentes afectivas e cognitivas, e são o resultado de generalizações de vivências diárias com a(s) figura(s) de vinculação, relativamente estáveis e não conscientes e passíveis de modificação através de experiências concretas.

Bowlby (1969) afirma que os working models resultam da interacção com a mãe, e que para estes serem funcionais a mãe deve ser sensitiva e respondente aos sinais e necessidades da criança.

Segundo a teoria da vinculação as manifestações de psicopatologia residem na alteração dos processos de vinculação. Existem mecanismos intermediários da relação afectiva em saúde mental, são estes: as expectativas de eficácia pessoal ou do auto-conceito, as estratégias de coping, distorção cognitiva na percepção de acontecimentos pessoais e o mecanismo de regulação do afecto.

O papel do conceito de si próprio, assume importância na perspectiva de que a vinculação sensitiva e respondente não é só uma base de segurança, a partir do qual o indivíduo pode explorar o meio, mas também um elemento capaz de produzir a sensação de que o indivíduo é capaz de despertar cuidados por parte dos outros, aumentando-lhe as expectativas de eficácia pessoal, que se generalizam a outros contextos. Ou seja, a relação de vinculação é o espaço que vai fornecendo feedback ao individuo sobre aquilo que ele é, como se a figura de vinculação de um espelho se tratasse.

Uma figura de vinculação inconsistente, ou rejeitante, produz a sensação de incapacidade para gerar capacidades adequadas por parte dos outros, o que acaba por se traduzir em expectativas de ineficácia individuais e em baixo auto-conceito. As estratégias de coping actuariam no sentido em que a figura de vinculação nem sempre exibe permanentemente comportamentos adequados às necessidades do indivíduo ou pode ser inconsistente na resposta, o que pode gerar ansiedade no indivíduo. No caso das distorções cognitivas na percepção de acontecimentos interpessoais, isto encontra-se subjacente na vinculação insegura, uma vez que estas pessoas estão especialmente predispostas a interpretar acontecimentos interpessoais indutores de stresse como rejeitções (HAMMEN et al, 1995, cit por CANAVARRO, 1999) ou como mais uma evidência da sua falta de competências sociais, podendo surgir, como resultado, sintomatologia depressiva ou outro tipo de psicopatologia. Rosenstein e Horowitz (1996:246) referiam que “a vinculação evitante é característica das perturbações em que a ansiedade é evitada, o afecto é contido e a expressão do comportamento disfuncional é directamente expressa em direcção aos outros (como acontece nas perturbações do comportamento ou no distúrbio da personalidade); a vinculação ansiosa é caracteristica das perturbações em que há consciência da ansiedade sentida, o afecto não é modelado e o comportamento disfuncional é directamente expresso em relação a si próprio (como acontece nas depressões, perturbações mediadas pela ansiedade e distúrbio da personalidade histérica)”.


Cranley (1981,p.282) definiu maternal-fetal atachment como “os comportamentos da mulher que representam ligação e interacção com o seu filho ainda por nascer”.

Muller (1993, p.11) definiu-a como a relação afectiva, única, que se desenvolve entre a mulher e o seu feto. Este conceito, segundo este autor, é mais abrangente que o conceito de vinculação porque diz respeito à construção de representações de interacções relevantes e significativas na formação de laços emocionais. O início da ligação materno-fetal, enquanto tarefa materna a desenvolver durante o período pré-natal, específica da relação diádica mãe-filho, caracteriza-se por, numa fase inicial, a mulher começar a pensar na ideia de estar grávida e, gradualmente, querer estabelecer uma relação, desenvolvendo assim uma ligação com o filho que está a gerar. Daí que, como enfatiza Muller (1993,p.11), o desenvolvimento da ligação da mãe com o feto necessitar de todo o tempo de gestação, pois esta envolve uma complexa reestruturação na vida da mulher (Mercer, 1996,p.52).

Do desejo de ter um filho, à escolha do seu nome e diminutivo, o arranjo do quarto, as compras de roupa, à imaginação do futuro bebé, da vivência dos movimentos fetais à experimentação das transformações ocorridas no plano corporal e relacional, tudo são esboços de clara filiação, ligação ou, pelo contrário, possibilidades de rejeição ou aceitação ambivalente (CRANLEY et al., 1996). Nesta perspectiva, a ligação materno-fetal, enquanto esboço da futura relação mãe-filho, proporciona ao nível do imaginário da mãe inserir o filho que irá nascer na sua história pessoal e familiar (BRAZELTON, 1990).

Winnicott refere que a construção saudável do sujeito, dá-se a partir da relação “saudável” entre a mãe e o bebé. O referencial reporta-se ao investimento libidinal no relacionamento dual, sendo que no primeiro ano de vida a mãe é encarada como um prolongamento de “si”, bem como o ambiente exterior. Se a relação mãe-filho não satisfizer as necessidades do bebé, isso pode acarretar para o bebé grande ansiedade.
  • Sinais clínicos preditivos de distúrbios difusos do desenvolvimento (perspectiva Freudiana):
    *ausência de olhar entre o bebé e a mãe;
    *alterações no circuito pulsional:
    - numa primeira fase o bebé é activo, isto é, procura a mama ou o biberão para se alimentar;
    - na segunda fase o bebé é reflexivo, ou seja, ele satisfaz-se a si mesmo com o seu dedo ou chupeta;
    - na terceira e última fase o bebé é passivo, provoca na mãe o desejo do toque.
  • Escala de severidade para a negligência( Hall et Alli):
    I.negligência emocional;
    II.protecção;
    III.banho;
    IV.higiene pessoal;
    V.supervisão;
    VI.nutrição;
    VII.cuidados de saúde;
    VIII.abandono.

Fonte:
CANAVARRO (1999). Relações Afectivas e Saúde Mental. Coimbra: Editora Quarteto.

BRAZELTON, T. Berry. CRAMER, Bertrand G. (1992). As primeiras relações. São Paulo: Martins Fontes.

domingo, fevereiro 11

Para compreender a Sindrome de Asperger

"Às vezes o meu mundo é bizarro. Quero conversar, mas não consigo encaixar-me nas conversas. Sei tanta coisa! E sei fazer contas melhor do que os da minha idade. Mas muitas vezes não os compreendo: quando se riem e não aconteceu nada de engraçado na realidade (as caras mudam, mas não compreendo o que isso quer dizer!), quando dizem provérbios e compreendem daí mais qualquer coisa, quando eu pergunto alguma coisa ao professor, e só por causa do meu tom de voz, todos dão uma gargalhada. Gostava de perceber estas coisas. Gostava de não me fechar no meu mundo, dias e dias sem conta, com os meus desenhos animados e os meus jogos de pares. Gostava de ler a realidade para além daquilo que é visivel."


» O que é a Síndrome de Asperger?
Quando conhecemos alguém, formamos uma opinião sobre essa pessoa. Só de a ver podemos adivinhar a sua idade e condição social. Da sua expressão facial ou do tom da sua voz podemos saber se está feliz, zangada ou triste. Se a ouvirmos falar podemos conjecturar sobre a sua formação e cultura. Da forma como se veste e da sua postura podemos descobrir qual a sua actividade profissional. Nem toda a gente nasce com esta capacidade. As pessoas com a Síndrome de Asperger (SA) têm dificuldade em descodificar os sinais que a maior parte dos humanos considera evidentes e lógicos. Isto representa um problema de comunicação e de interacção com os outros.Esta página da Internet explica as características da Síndrome de Asperger e o que pode ser feito pelas pessoas que apresentam estas características. É destinada essencialmente às famílias, aos professores e aos próprios “aspies” (aqueles que são diagnosticados com a SA).A Síndrome de Asperger é uma forma de autismo, uma condição que afecta o modo como uma pessoa comunica e se relaciona com os outros. Entre outras características dos “aspies” podemos destacar as seguintes:
- dificuldade na comunicação;
- dificuldade no relacionamento social;
- dificuldade no pensamento abstracto.

No entanto as pessoas com SA têm problemas de linguagem em menor escala do que as classificadas como autistas, falam mais fluentemente e não têm dificuldades de aprendizagem tão marcadas. Os “aspies” têm normalmente inteligência (Q.I.) média ou mesmo acima da média.Muitas crianças com SA não são diagnosticadas como tal. São muitas vezes referidas, pela família e professores, como estranhos, excêntricos, originais, diferentes, extravagantes ou esquisitos.Os casos menos pronunciados, diagnosticados ou não, podem entrar no sistema educativo comum e com o apoio adequado e motivação apropriada, em casa e na escola, podem fazer excelentes progressos, ter sucesso, e mesmo continuar os estudos ao nível universitário e arranjar um emprego.
» Caracteristicas da Síndrome de Asperger
A Síndrome de Asperger partilha muita das características conhecidas do autismo, mas habitualmente num grau menos profundo:
DIFICULDADES NAS RELAÇÕES SOCIAIS: Ao contrário dos autistas “clássicos”, que normalmente estão ausentes e desinteressados do mundo que os rodeia, muitos “aspies” querem ser sociáveis e gostam do contacto humano. Têm no entanto dificuldade em perceber sinais não-verbais, incluindo os sentimentos traduzidos em expressões faciais, o que levanta problemas em criar e manter relações com pessoas que não percebem esta dificuldade.
DIFICULDADES NA COMUNICAÇÃO: Os “aspies” podem falar com fluência, mas parecem não ligar às reacções das pessoas com quem falam. Podem falar sem parar nem mudar de assunto, independentemente do interesse mostrado pelo seu ouvinte, e podem parecer insensíveis aos seus sentimentos.Apesar de poderem dominar a linguagem verbal, têm problemas em entender anedotas, metáforas e entoações. Normalmente falam e lêem com pouca entoação e traduzem as palavras de forma literal. Frases do tipo “o gato comeu-te a língua?” ou “isso para mim é chinês”, podem não ser entendidas e conduzir a algumas confusões. Para ajudar um “aspie” a perceber o que se diz, devemos tentar manter uma conversação com frases curtas, precisas e concisas.
FALTA DE PENSAMENTO ABSTRACTO: os “aspies” podem ser excelentes na memorização de factos e números mas têm normalmente dificuldade ao nível do pensamento abstracto.Isto é causa frequente de problemas na aprendizagem, em ambiente escolar, de matérias como o português ou filosofia. No entanto, podem ser excelentes a matemática ou geografia.
INTERESSES ESPECIAIS: as pessoas com SA desenvolvem normalmente interesses obsessivos sobre determinados assuntos, (que podem evoluir ao longo da sua idade), que lhes despertam a atenção. Normalmente os seus interesses envolvem a memorização ou ordenação de factos sobre um assunto específico, tal como comboios, planetas ou cartas coleccionáveis.Com um pouco de orientação estes interesses podem ser desenvolvidos de modo a que o “aspie” venha a estudar ou trabalhar na área do seu interesse específico.
GOSTO POR ROTINAS: as pessoas com SA não gostam de alterações ou mudanças. As crianças podem impor as suas rotinas, tais como insistir em seguir sempre o mesmo caminho para a escola. Na escola podem ficar nervosos com uma alteração no horário, ou mudança de professor.Os “aspies” gostam normalmente de ter uma rotina diária coerente e imutável. Se trabalham de acordo com um horário, um atraso inesperado, devido a um demora nos transportes ou a problemas de tráfego, podem torná-los muito nervosos ou ansiosos.
Estas são as características principais das pessoas com SA, que de alguma forma podem estar presentes, mas, porque cada caso é um caso, variam muito em número e grau de indivíduo para indivíduo.
» O que causa a Síndrome de Asperger?
As causas do autismo e da Síndrome de Asperger não são ainda totalmente compreendidas. Muitos especialistas acreditam que as alterações do comportamento que constituem o SA podem não resultar de uma única causa.Existe alguma informação que leva a pensar ser a SA provocado por um conjunto de factores neuro-biológicos que afectam o desenvolvimento cerebral, e não ser devida, como se chegou a pensar, a privação de afecto, ou à criança ter crescido num ambiente demasiado austero.
» Existe cura para a Síndrome de Asperger?
A Síndrome de Asperger é um tipo de desenvolvimento que afecta a forma como o cérebro processa informação, e como tal não tem cura. Crianças com Síndrome de Asperger tornam-se adultos com Síndrome de Asperger. No entanto, o processo de crescimento natural associado a uma educação adequada e apoio correcto ao longo do processo de desenvolvimento da criança, do jovem e do adulto, podem tornar a vida muito mais harmoniosa e menos difícil. Com tempo e paciência, as pessoas com SA podem ser ensinadas a desenvolver as competências básicas para a vida do dia-a-dia, inclusive a forma mais adequada de comunicar com as outras pessoas e de reagir em determinadas situações.
» A importância do diagnóstico precoce
Como as características de uma pessoa com SA não são tão vincadas como as de um autista “clássico”, e porque a síndrome ainda é desconhecida de muito técnicos e especialistas da área da saúde, uma criança pode não ser diagnosticada a não ser quando entra na escolaridade obrigatória e apresenta dificuldades de aprendizagem. Mesmo assim, é frequente que o diagnóstico não seja correcto, e a criança seja diagnosticada como tendo hiperactividade ou de défice de atenção. Isto significa que não obtêm os cuidados especiais de que necessitam. Isto é extraordinariamente frustrante para os próprios e também para os pais, que normalmente são acusados de não serem bons educadores devido aos comportamentos bizarros ou fora do comum que os seus filhos apresentam.
» Perspectivas de Futuro
Actualmente não existem em Portugal instituições dedicadas exclusivamente às crianças “aspies”. Algumas crianças andam nas escolas do ensino regular, onde o seu progresso depende do ambiente gerado à sua volta e do apoio e encorajamento de pais e professores. Outras frequentam escolas de ensino especial, vocacionadas para crianças com problemas mais graves de desenvolvimento. As crianças SA são mais vulneráveis porque, por um lado, podem não ter sido devidamente diagnosticados, por outro, porque os seus problemas de aprendizagem são menos óbvios do que os de outras crianças. São por isso, normalmente, um alvo preferencial do abuso físico e verbal por parte dos seus colegas, o que os pode tornar especialmente frustrados ou angustiados. Ao crescerem tomam melhor consciência da sua diferença e podem ter tendência para a solidão e depressão. As pessoas com SA normalmente querem ser sociáveis mas têm dificuldade em criar e manter amizades. Mas o futuro das pessoas com SA não necessita de ser obrigatoriamente negro. Adultos com SA podem ter grande sucesso nas carreiras que escolhem, potenciando as suas qualidades de obstinação, memória e facilidade para a matemática, e podem desenvolver amizades duradouras. Como trabalhadores os SA têm características muito prezadas – pontualidade, fiabilidade e dedicação – no entanto é essencial que o ambiente de trabalho que o rodeia seja harmonioso e compreenda às suas características.
» Perspectiva da Criança
Como se sente uma pessoa com a Síndrome de Asperger:
- Eu posso estar concentrado nos meus pensamentos e não ouvir alguém chamar ou falar comigo.
- Um determinado sabor pode ser óptimo para toda a gente, e para mim ser de vómitos.
- O mesmo acontece com alguns cheiros. O melhor perfume do mundo pode fazer-me sentir a sufocar. O cheiro do tabaco pode ser completamente insuportável.
- Às vezes os ruídos são para mim ensurdecedores e eu tenho de tapar os ouvidos ou fugir.
- Eu tenho um interesse especial, do qual falo constantemente. SE for por comboios, então gosto de tirar fotografias de comboios, desenhar comboios e até reproduzir os barulhos de comboios.
- Fico muito excitado quando abordo o assunto e não entendo porque é que os que me rodeiam não se interessam pelo tema.
- Eu tenho determinados rituais ou “manias”, que tenho de seguir escrupulosamente, para ficar calmo e relaxado. Mas às vezes fico frustrado pois ocupam-me muito tempo.
- Às vezes fico assustado se vejo muitas pessoas à minha volta ou alguém que desconheço. Nem sequer quero olhar para eles ou falar com eles, quero ser invisível. Tenho dificuldade em pedir coisas nas lojas ou em falar com o empregado do restaurante. Fico muito envergonhado e um pouco assustado.
- Eu não consigo perceber o que estás a sentir quando olho para ti. Tenho dificuldade em perceber a linguagem corporal a não ser que estejas a chorar, rir ou a gritar muito alto.
- A maior parte das vezes não gosto que me toquem. Prefiro que não me dêem abraços mas adoro que alguém conhecido me coce as costas. Não gosto muito de cortar e lavar o cabelo e detesto que me cortem as unhas.
- Não sou nenhum equilíbrista e até andar a pé me cansa.
- Não entendo as palavras com duplo sentido. Também não percebo as anedotas.
- Eu acredito piamente no que me dizem. Se me dizes que as pessoas morrem se não bebem água posso levar tão a sério que passarei a beber água a toda a hora. Isso fica-me na memória e preocupa-me. Não me passa pela cabeça que uma pessoa sem água pode sobreviver alguns dias ou que a água necessária ao corpo pode vir de outras fontes (leite, sopa, etc)
- Tenho consciência que sou diferente, que não consigo fazer com facilidade o que os outros fazem e isso deixa-me nervoso e frustrado. Mas não percebo a origem da minha diferença ou porque é que os outros me gozam.
- Eu gosto de conhecer novas pessoas e falar-lhes, mas não sei como. Elas assustam-me. Leva-me algum tempo a ficar confortável com alguém.
- Não percebo porque é que o meu professor diz que eu me porto mal … eu esforço-me por fazer o meu trabalho mas não percebo muitas coisas e não mas explicam correctamente. Mas se me sentam no fundo da sala ainda é pior porque ou fico a sonhar acordado ou me distraio facilmente.
- Não consigo com facilidade ver as horas, atar os atacadores, descascar uma peça de fruta, dar um chuto decente numa bola, andar de bicicleta, usar o compasso ou a régua.
- Algumas roupas são tão desconfortáveis que não consigo vesti-las.
- Prefiro ficar em casa a jogar Playstation ou ver televisão do que ir ao parque.
- No recreio não me importo de brincar sozinho.
in Associação Portuguesa do Síndrome de Asperger

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sábado, outubro 28

Actividade simbólica na infância

A actividade simbólica na criança, vulgarmente designada de fantasia ou imaginação, é frequentemente a porta de entrada e de saída da sua afectividade. Através das brincadeiras, a criança representa papéis, constrói situações e ensaia respostas que a vão ajudar no seu dia-a-dia.
Quando já existe algum grau de sofrimento psicológico, com manifestações psicopatológicas ou não, o mundo simbólico da criança assume o papel de mostrar os fantasmas que assolam a sua saúde mental. A fantasia representa, então, um espaço de libertação, de transformação dos objectos internos, sobretudo quando existe um ego auxiliar, que consegue compreender a fantasia, relacioná-la com o real e devolvê-la à criança num formato desintoxicado (como diria Bion, já transformado em elemento alpha). Num formato que seja para ela compreensível.
Frequentemente, quando o ego auxiliar não é capaz de cumprir esta função, de desintoxicação da fantasia, acontece a sua repetição, uma vez, e outra, e mais outra, até que a devolução ocorra e a ligação se faça na psique da criança.
Outras vezes, a fantasia repete-se, porque os papéis que estão a ser ensaiados na brincadeira ainda não foram suficientemente interiorizados. É o caso de uma menina de 5 anos, que durante uma hora, me coloca a correr atrás dela, enquanto ela salva uns animais fantoches. E depois, troca de papéis, sendo eu a salvadora dos animais e ela o animal feroz que corre atrás de mim, e mos tenta roubar e comer. Apesar desta fantasia dar azo a várias interpretações, penso que o mais importante, neste caso, é a interiorização de um sentimento de segurança (de um vinculo seguro), que não foi possível ser interiorizado na relação com os principais objectos de vinculação.
Resumindo, a possibilidade de saltitar nas brincadeiras entre concreto e imaginário permite o desenvolvimento da afectividade, quando existe um percurso normativo, e permite ainda a transformação dos fantasmas perturbadores, quando no percurso são encontrados alguns factores de risco que podem conduzir à psicopatologia. Movimentando-se entre real e imaginário, a criança percebe a aplicabilidade das competências desenvolvidas ao nível do faz-de-conta. Se não houver esta ligação, a criança pode-se perder em fantasias aterradoras, e perder o sentido de si e da realidade.
Para terminar, fica aqui um excerto do site cujo link coloquei em cima. Não deixem de o visitar.

O jogo simbólico é a representação corporal do imaginário, e apesar de nele
predominar a fantasia, a atividade psico-motora exercida acaba por prender a
criança à realidade. Na sua imaginação ela pode modificar sua vontade, usando o
"faz de conta", mas quando expressa corporalmente as atividades, ela precisa
respeitar a realidade concreta e as relações do mundo real. (...) No jogo simbólico a criança sofre modificações, à medida que vai progredindo em seu desenvolvimento rumo à intuição e à operação. E finalmente, numa tendência imitativa, a criança busca coerência com a realidade.

quarta-feira, agosto 30

A casa que faz nuvens tristes: notas sobre a depressão infantil


Hoje, em conversa com um menino de cinco anos, não pude deixar de pensar que a depressão é um estado de humor que não escolhe idades.

Como a maioria dos meninos da sua idade, empenhados em imprimir forma ao seu imaginário, este quis fazer um desenho comigo. O desenho consistia numa casinha pequenina (figura materna), uma árvore com laranjas (figura paterna) e uma flor. Todo o terreno era muito árido, excepto onde estava a flor, que tinha debaixo um tufo fofo de relva verde. A casa não tinha porta, nem janelas, só um puxador (como se toda a casa fosse a porta), um telhado e uma chaminé, da qual saía um fumo espesso, muito comprido, que chegava até ao céu. Quando questionado sobre a função daquele fumo todo, o menino respondeu-me "É uma casa de fazer nuvens tristes" e, imediatamente, fez nuvens e pingos de chuva a cair.

Se a aridez e a falta de colorido dos elementos do desenho (especialmente, árvore e casa) já nos indica uma falta de colorido interno, o facto da casa produzir na sua chaminé nuvens tristes, envia-nos a mensagem explícita de um lar com caracteriticas depressígenas.

Este desenho veio hoje confirmar algo que eu já havia pensado quando aprofundei a anamnese da criança e a estrutura familiar: uma familia com um luto mal resolvido, uma figura materna com episódios de depressão na sua história clinica (inclusivé, pós-parto) e uma criança com sentimentos internalizados de desvalorização enquanto objecto com qualidades para ser amado, sentimentos de inferioridade ("Sou menos que os outros, porque não sou amado") e sentimentos de culpa ("Sou mau, e por isso, mereço ser castigado e não ser amado"). A sintomatologia da criança: rebeldia em casa, desobediência aos pais e episódios de agressividade, em especial para com a figura materna. No resto dos contextos, inclusivé na escola, um comportamento exemplar, uma boa capacidade de aprendizagem, mas alguma dificuldade de integração no grupo de pares e alguma inibição excessiva.




A Depressão Infantil


A depressão na criança foi, durante muito tempo, desconhecida. A ideia da infância como um período tranquilo, protegido de todas as preocupações, conduziu a que, durante muito tempo, não se pusesse sequer em causa que durante a infância não poderia existir sofrimento psicológico.


Para além disto, a sintomatologia depressiva na criança é muito diferente da do adulto e dificilmente reconhecível, uma vez que pode tomar diversas formas. Normalmente, a depressão infantil resulta de uma perda, podendo esta perda ser real (por exemplo, a morte de um dos pais) ou simbólica (por exemplo, quando os pais estão fisicamente presentes, mas não o estão emocionalmente).


Também pode ocorrer que as adaptações psicológicas normais no desenvolvimento se tornem demasiado difíceis para a criança, constituindo-se não como uma causa, mas como um factor de risco para uma depressão. Se as etapas do desenvolvimento, por serem mais complicadas para a criança, podem dar lugar a reacções depressivas, a depressão, depois de instalada, constitui-se inevitavelmente como um entrave ao desenvolvimento intelectual, afectivo e mesmo físico da criança. (in http://pipocaecompanhia.blogs.sapo.pt)

Segundo o site http://www.clubedobebe.com.br, a depressão infantil pode ter a seguinte sintomatologia:


  • Dificuldade de se afastar da mãe
  • Angústia
  • Pessimismo
  • Irritabilidade, agressividade
  • Problemas de alimentação
  • Tronco arqueado
  • Incapacidade de sentir prazer
  • Apatia, isolamento social e desinteresse
  • Insónia ou sono excessivo que não satisfaz
  • Défice de atenção
  • Dores frequentes
  • Agitação excessiva
  • Baixa auto-estima e sentimento de inferioridade

Quanto mais nova é a criança, maior tendência tem para exprimir corporalmente a sua tristeza. Podem surgir perturbações psicossomáticas, tais como: dores sem uma explicação física para tal, dificuldades respiratórias, eczemas ou alergias da pele, infecções gerais, vómitos, tonturas, entre outras. No entanto, é sempre necessário eliminar a possibilidade de uma verdadeira doença física, o que não invalidará a possibilidade de existência de uma depressão, pois a criança poderá estar doente e também deprimida. A regressão é também um dos sintomas da depressão, presente sobretudo nas crianças mais novas. A criança adopta comportamentos que já havia ultrapassado e que são pouco adequados à sua idade, voltando a agarrar-se demasiado à mãe na presença de estranhos, falando de forma “abebezada”, voltando a fazer chichi na cama, ou voltando a ter brincadeiras que já não tinha e a utilizar brinquedos pelos quais já se havia desinteressado.

Quanto mais crescida é a criança mais a sua tristeza é exprimida através de comportamentos ou mesmo de palavras. As dificuldades escolares e de concentração, a falta de confiança em si própria, os sentimentos de inferioridade e o isolamento ocupam um lugar privilegiado na manifestação da angústia que vive. A perda de interesse e de prazer em actividades de que anteriormente gostava é outro sintoma de referência no quadro da depressão infantil. Poderá surgir um medo exagerado, intenso e duradouro de algo ou mesmo um medo generalizado, de que algo de mal poderá acontecer a qualquer momento. Este medo poderá ser, por exemplo, concentrado na escola, constituindo-se uma fobia escolar. Por outro lado, a criança deprimida pode adoptar comportamentos de instabilidade, passando de tarefa em tarefa sem conseguir manter a atenção, e de agressividade, através de atitudes provocatórias em relação às outras crianças e ao adulto. Os rituais poderão também surgir, adoptando actividades repetitivas e obsessivas.

Quando um dos pais está deprimido, é raro que a criança não sofra consequências. A depressão dos pais pode ser resultado de diversos factores, mas a que mais evidência tem é a depressão pós-parto da mãe. Esta depressão impede a mãe de cuidar e estimular o seu filho correctamente, está indisponível para estabelecer uma relação vinculativa com a criança. O seu estado impede-a de desempenhar correctamente o seu papel de mãe. Assim, a criança não consegue estabelecer os seus pontos de referência e os seus ritmos são perturbados, podendo instalar-se a angústia depressiva. Nestes casos, o tratamento da depressão na criança deve ser acompanhado pelo tratamento da depressão da mãe. ( in http://pipocaecompanhia.blogs.sapo.pt)



A relação de ajuda e o processo terapêutico


"...o reconhecimento precoce de um estado depressivo poderá ter profundos efeitos na futura evolução da doença" (in http://gballone.sites.uol.com.br/infantil/depinfantil.html)

O processo psicoterapêutico deve sempre encaminhar-se no sentido de ajudar a criança a perceber as suas qualidades enquanto objecto capaz de ser amado, ou seja, tem que haver uma reformulação do seu auto-conceito, que passa sempre por um reforço da sua auto-estima, sendo ambos ensaiados, e esperamos que fortalecidos, na relação com o psicoterapeuta.

Frequentemente, os sintomas apresentados pela criança operam algum grau de mudança na disponibilidade das figuras parentais, que quando pedem ajuda técnica, colocam dúvidas e questões sobre as suas atitudes. Por vezes, existem pais, que devido também a histórias relacionais ocas no que concerne a afectividade e o amor sentidos, depositam o filho ou filha ao técnico, esperando que este a cure, como se a sua indisponibilidade afectiva não tivesse qualquer consequência na criança.

Mas como quando trabalhamos com crianças, o nosso esforço deve passar também por criar as melhores condições ambientais possiveis (familires, escolares e comunitárias), o pedido de ajuda dos pais deve ser trabalhado como uma porta aberta para pensar as práticas educativas e o lugar que aquele filho ocupa na afectividade parental. Ou seja, o técnico é responsável por criar nos pais qualidades de vinculação a um filho que estará sempre longe do idealizado, mas que não é por isso que deixa de ter qualidades, assim como um estilo relacional pais-filho que opere mudanças no mecanismo tantas vezes frequente: idealização do objecto e culpabilização do próprio sujeito que apresenta os sintomas depressivos.

Em suma, o técnico deve sobressair no imaginário da criança como uma flor, com cor e vivacidade, capaz de aproveitar alguma coisa de bom, mesmo nos dias de muita chuva.

segunda-feira, agosto 28

A Magia do Sonho

Quando trabalhamos com crianças não conseguimos (nem elas nos deixam) não ser, nem que seja um pouco, contagiados com os seus sonhos.

Lembro-me que há um tempo atrás os sonhos eram maioritariamente constituidos pelos Pokemons, depois passaram a ser povoados pelo Homem-Aranha, seguiram-se as personagens dos Morangos com Açúcar (em que os D'zrt se destacaram como ninguém) e, presentemente, temos o fenómeno Floribella, com as suas flores, os seus corações, os principes, as princesas e as bruxas más, e o fenómeno Noddy, com o Sr. Lei, o Orelhas, a Ursa Teresa, o Mafarrico e o Sonso, e uma cidade cujo nome não poderia ser mais apelativo ao imaginário dos pequenotes, a Cidade dos Brinquedos.

Se há quem critique os movimentos de massas, e em especial os fenómenos que tiram partido do público infantil, eu penso que estes dois fenómenos estão a contribuir, em muito, para o desenvolvimento dos mais pequenos, sobretudo porque fertilizam o imaginário e alimentam a esperança que a vida também traz coisas boas. Fazem sonhar, ou por outras palavras, fazem-nos desejar coisas boas para a nossa vida, dão humanidade a cada um de nós, e ensinam-nos a dar valor à nossa existência.

Mas como as opiniões são como as barrigas, cada um tem a sua!, nem todos vêem estes fenómenos da mesma forma.

Há quem argumente que a Floribella é demasiado cor-de-rosa, o que pode dar às crianças a impressão que o mundo real é também assim, totalmente BOM.

Todos nós, incluindo os pais e os avós, crescemos com contos de fadas, que nos ensinavam, especialmente, que praticar o mal acabava sempre por não compensar e que o caminho do bem poderia ser doloroso, mas no fim tinha melhores resultados. Também os contos infantis são povoados por principes e princesas, fadas e bruxas, e não é por isso que todos nós crescemos com a ideia que o mundo ou é totalmente bom ou é totalmente mau. A visão da totalidade do objecto (ou seja, a internalização de um objecto com partes boas e partes más) prende-se, sobretudo, com o estilo relacional que nos é oferecido no nosso meio mais próximo, quando crianças e adolescentes, e não é um conto infantil que vai operar mudanças profundas no objecto internalizado. Pode cristalizar e reforçar este tipo de mecanismo de clivagem, quando o estilo relacional oferecido no meio próximo já proporcionava um funcionamento deste tipo, mas não torná-lo predominante no funcionamento psiquico da criança, não quando as trocas relacionais com os outros significativos premitiram a internalização de mecanismos mais flexíveis.

Outros dizem que a novela é demasiado infantil, devido ao género de piadas que utiliza e às situações, quase forçadas, que cria de pregar partidas e elaborar vinganças a essas partidas, com mais partidas. Mas se conseguem provocar uma bela gargalhada e dar lugar à boa disposição em miúdos e graúdos, porquê fechar os olhos a essa boa disposição? Porque é que havemos de achar que ver as noticias, e seguir com atenção as tragédias do nosso planeta, nos dá um ar sério e, logo, mais respeito perante os outros?

Eu digo sempre que sim à boa-disposição e ao sonho. Porque disfrutar de um produto que movimenta massas não nos tira a inteligência, nem o prestigio enquanto pessoas. Porque a seguir a um episódio da Floribella consigo deliciar-me à mesma com um quadro de Degas, ou outro tipo de arte dita para intelectuais. Porque participar na magia dos sonhos infantis é uma porta aberta para o imaginário das crianças. Logo, para as suas vivências. Logo, para a sua compreensão.